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Recomeçar


Recomeça...

Se puderes

Sem angústia

E sem pressa.

E os passos que deres,

Nesse caminho duro

Do futuro

Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances

Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,

Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.

Sempre a sonhar e vendo

O logro da aventura

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

Onde, com lucidez, te reconheças...


Miguel Torga


Nome:
Local: Porto Alegre, RS, Brazil

Procurando respostas...

Zoundry Blog Writer

Tire todas as suas dúvidas sobre blogs.

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28.9.05

Então...

A mente que mente,
mente ou demente?

26.9.05

Ain't No Cure For Love

I loved you for a long, long time
I know this love is real
It don't matter how it all went wrong
That don't change the way I feel
And I can't believe that time's
Gonna heal this wound I'm speaking of
There ain't no cure,
There ain't no cure,
There ain't no cure for love.

I'm aching for you baby
I can't pretend I'm not
I need to see you naked
In your body and your thought
I've got you like a habit
And I'll never get enough
There ain't no cure,
There ain't no cure,
There ain't no cure for love

There ain't no cure for love
There ain't no cure for love
All the rocket ships are climbing through the sky
The holy books are open wide
The doctors working day and night
But they'll never ever find that cure for love
There ain't no drink no drug
(ah tell them, angels)
There's nothing pure enough to be a cure for love

I see you in the subwayand I see you on the bus
I see you lying down with me, I see you waking up
I see your hand, I see your hair
Your bracelets and your brush
And I call to you, I call to you
But I don't call soft enough
There ain't no cure,
There ain't no cure,
There ain't no cure for love

I walked into this empty church I had no place else to go
When the sweetest voice I ever heard, whispered to my soul
I don't need to be forgiven for loving you so much
It's written in the scriptures
It's written there in blood
I even heard the angels declare it from above
There ain't no cure,
There ain't no cure,
There ain't no cure for love

There ain't no cure for love
There ain't no cure for love
All the rocket ships are climbing through the sky
The holy books are open wide
The doctors working day and night
But they'll never ever find that cure,
That cure for love

22.9.05

Meias-voltas

A sinceridade nunca pode ser reticente.
Se as pessoas lembrassem disso, provavelmente a vida seria bem menos dolorida, ou talvez a dor não durasse tanto.
É tão mais fácil seguir por um caminho reto, por que insistem em desvios e meias-voltas?
 

12.9.05

Amor e Sexo

Rita Lee / Roberto de Carvalho / Arnaldo Jabor

Amor é um livro - Sexo é esporte
Sexo é escolha - Amor é sorte
Amor é pensamento, teorema
Amor é novela - Sexo é cinema
Sexo é imaginação, fantasia
Amor é prosa - Sexo é poesia
O amor nos torna patéticos
Sexo é uma selva de epiléticos

Amor é cristão - Sexo é pagão
Amor é latifúndio - Sexo é invasão
Amor é divino - Sexo é animal
Amor é bossa nova - Sexo é carnaval

Amor é para sempre - Sexo também
Sexo é do bom - Amor é do bem
Amor sem sexo é amizade
Sexo sem amor é vontade
Amor é um - Sexo é dois
Sexo antes - Amor depois
Sexo vem dos outros e vai embora
Amor vem de nós e demora

Desejar e Amar

" Desejar significa querer usar algo para sua felicidade;
Amar significa que a sua felicidade não está absolutamente envolvida nisso.
Na verdade, Desejar significa tirar alguma coisa e Amar significa dar algo. São diametralmente opostos.
No Amor, o outro é importante.
No Desejo, você é que é importante.
No Desejo, vc pensa em como fazer do outro um instrumento seu;
no Amor, em como tornar-se um instrumento.
No Desejo, vc sacrificará o outro, o magoará.
No Amor, sacrificará a si mesmo.
Amar significa Dar, Desejar significa Tirar.
O Amor é uma entrega, o Desejo é uma agressão.
O que vc diz é insignificante. Mesmo quando deseja vc fala em termos de Amor. Sua linguagem não tem muito significado, por isso não se engane. Olhe para o interior, e então compreenderá que nenhuma vez na vida olhou com Amor para alguém ou para algum objeto.
Sempre que você olha com Amor para um objeto ou um animal, que seja, ele se torna um indivíduo. Um bichinho de estimação, uma casa, um carro, seja o que for. O olhar de amor torna-o pessoa e insubstituível.......
Sempre que olha com desejo e cobiça para alguém, essa pessoa torna-se um objeto, uma coisa, e vc magoa o outro. Está pensando em como usá-la.
Mas o Amor torna qualquer coisa ou pessoa Única. Por isso é que , sem amor, vc jamais se sente alguém. A menos que alguém o ame profundamente, jamais sentirá que é um ser único. E aí vc pode ser substituído, como " uma coisa".
Uma pessoa é ùnica, uma coisa não é."  
 
Bhagwan Shree Rajneesh, conhecido como "Osho"
 
E na linguagem atual " do amor", vc dirá : " A fila anda"......e então saberá que foi apenas Desejo......

10.9.05

Putz, até aqui....

Peço desculpas por passar a exigir a "autenticação" dos comentários...mas é que alguns chatos começaram a usar bots para transmitir propagandas através desse meio. Já não bastavam os spams...

8.9.05

Blogs de Pessoas Mortas

Alexandre Cruz Almeida
As pessoas morrem, mas seus blogs continuam.

Alessandre Américo Teixeira, 31
anos, também conhecido na Internet como Alex Doido ou Alex Teixeira, criou o blog Outros Caminhos
em junho de 2003: "Aqui é um lugar que criei para escrever, sobretudo para me divertir e divertir os amigos, nem sempre com idéias comuns... Estou cansado de não falar, não escrever, não expor meus pensamentos..."

Alex trabalhava como auxiliar em um escritório de comércio exterior de Santo André, no ABC Paulista, mas queria voar mais alto. Em agosto, ele decidiu "prestar vestibular no final do ano. Como cansei da minha profissão e quero mudar de ares, vou fazer Direito, (...) continuar em negócios internacionais, mas pelo lado legal."

Ao mesmo tempo, Alex tinha outros projetos. Um dos personagens constantes de seu blog é o livro que estava escrevendo. Já em julho, ele anuncia: "Estou radicalmente a fim de dar continuidade ao meu livro-mor."

Algumas vezes, Alex fala do livro com enfado:

"Eu ainda no marasmo que antecede boas coisas, tenho certeza disso. Nada de novidades, nada de nada... (...) O livro?!? Que livro?!? Não estou com paciência para livro, apenas coisas práticas estão me impregnando nesses dias. Acho que estou velho, mas não quero ser um velho chato, do tipo que incomoda todo mundo. Mas ainda tenho 31, e só fico velho daqui 1000 anos...tenho muito de juventude, só a cabeça está meio cansada...mas isso passa..."

Outras, com entusiasmo:

"Estou positivamente decidido a trabalhar com mais afinco. Walt Witman ficaria com inveja da minha disposição. Cansei de perambular pela net e no fim do dia não ter nada para mostrar para a Bia."

A esposa, Bia, administradora de um restaurante industrial, e os três filhos, Vitória, 11, Caio, 8 e Letícia, 6 anos, também são presenças constantes no blog do Alex:

"Como não tive pai fico me baseando naquilo que eu gostaria de ter como pai, assim posso ser para meus filhos aquilo que alguém poderia ter sido para mim. (...) Fazemos filhos para serem a continuidade de nosso DNA pelos séculos vindouros. Para serem a parte que falta em nossas conquistas."

Alex comenta que só de madrugada sente a tranqüilidade necessária para criar, mas que tem "um entrave chamado esposa... Ela não dorme se eu não estiver com ela, e acabo por deixar de lado o momento da criação e vou, placidamente, dormir com minha pequena."

Também não faltam as elucubrações filosóficas sobre a vida e a morte:

"Qual é a idade certa para se morrer?!? O que determina que uma pessoa viveu o suficiente?!? (...) Aproveitar a vida não está intrinsecamente ligado aos anos que se viveu. Não se determina uma boa vida pelos anos de passagem terrena. (...) Uma vida medíocre só é assim aos olhos dos outros, nunca aos olhos de quem está vivendo a mediocridade, que é um ponto de equilíbrio entre o banal e o perfeito. Quem sabe se viva melhor assim?!"

Aos poucos, Alex deixa transparecer problemas. Aumentos súbitos de pressão arterial, dores de cabeça muito fortes. Ele chega a ser internado brevemente "por algo que está acontecendo com minha pressão arterial...sinto que minha cabeça vai explodir, e não é nada agradável..."

Em agosto, vem um diagnóstico tranqüilizador: "Ontem o mistério foi desvendado, e minha doença é meramente cefaléia motivada por um stress imbecil...portanto, amigos que se preocupam, fiquem um pouco mais calmos...ainda estou mal, mas isso vai passar."

Infelizmente, não é só isso. Em 3 de setembro, a bomba: "Essa semana foi diagnosticado um tumor em meu cérebro, em uma região delicada. Não sabem ainda o que está alimentando esse tumor, nem se é benigno. (...) Tenho terror em pensar em ficar internado."

Depois disso, os posts começam a se espaçar mas a determinação de Alex em vencer o tumor e manter o blog é inabalável:

"Estou bem e tenho certeza de que assim permanecerei. Minha vontade de viver é maior que meu medo, e minha fé cresce a cada minuto. Não estou mais tendo tempo para postar (...) e isso me incomoda, não gosto de deixar as coisas pela metade, mas (...) estou deixando o pc cada vez mais de lado para estar com minha família. (...) Não irei detonar esse blog, mas vamos deixar as coisas assim, e eu vou escrevendo eventualmente..."

O último post é de 2 de outubro de 2003: "Resolvi mesmo ficar bem, sair já dessa situação besta e voltar a carga com minha vida, da maneira como tem que ser, com trabalho, vida, saúde, fé, esperança e paz."

Conversei com Bia, a esposa do Alex, e ela supriu as lacunas. Dois dias depois, com dores intensas e gastrite nervosa, ele foi internado pela primeira vez. Passou só uma noite no hospital, mas sua situação piorava bastante. Tentou passar o máximo de tempo com os filhos. Bia continua:

"No dia 12/10, domingo, ele até estava bem ficou o dia quase sem dores, se alimentou um pouco, mas no dia seguinte, quando cheguei do trabalho, ele estava com retenção urinária e tive que levá-lo até o hospital pra passar uma sonda de alívio, foi desde aí que ele não voltou mais pra casa, porque depois da sonda ser passada, quando voltamos até o consultório médico, ele teve uma crise convulsiva e a médica internou-o imediatamente. Então, ele foi internado no dia 13/10 por volta das 22hs e faleceu no dia 20/10, às 22:35hs. Foi uma semana certinho. e o que ele queria era ficar mais com a família..."

Hoje, o blog
Outros Caminhos
continua vivo, mantido pela Bia, honrando um dos últimos desejos de Alex:

"Assim, um dia, ele, o Ale, passou pela minha vida e eu aqui estou pra continuar aquilo que ele mais gostava, fazer amigos e escrever pra todos que aqui vem ler... Continuarei por aqui (...), tentando dar continuidade neste blog, que peço ajuda de todos aqueles que gostavam dele."

Eles iriam se casar no papel em 17 de janeiro desse ano, no aniversário de 10 anos de seu primeiro encontro. Foi em um ônibus, de madrugada, voltando do Hollywood Rock. Dois estranhos que sentaram juntos.

Alex completaria 32 anos em abril.

* * *

Ainda bem que a língua permite referência a autores falecidos no presente. Foi um grande consolo não ter precisado escrever esse texto inteiro no pretérito.

* * *

O caso de Alex está longe de ser único. Hoje em dia, a população blogueira ainda é majoritariamente jovem, então as mortes ainda são esporádicas e acidentais. A medida que a Internet se popularizar e envelhecer, blogs, sites e flogs de pessoas mortas serão tão comuns quanto, digamos, livros de pessoas mortas.

* * *

No dia 31 de maio de 2003, três adolescentes foram pisoteados e mortos durante o show de rock Unidos pela Paz, no Jockey Club de Curitiba. Larissa Cervi Seletti, uma das vítimas, tinha um blog.

Na segunda, 19 de maio, menos de duas semanas antes de morrer, Larissa conseguiu criar o seu novo blog:

"AAAAAHHHHHH GRAÇAS A DEUUSS FINALMENTE CONSEGUI FAZE ESSE TRECO DI NOVUUU TO FELIIIIZ... bem como vcs perceberam eu fikei um bom tempo sem blog... pq esse blig eh uma kenga.. mais tudu bem... fiz otro... igual dããã... (...) comentem pq eu to de kra com vcs q ngm mais lembra di mim...."

Larissa parece ser a típica blogueira de 15 anos de idade, com seu dialeto incompreensível, fotinhas de todos os amigos e dezenas de botões piscantes. Algumas das fotos, inclusive, são de Larissa e seus amigos em um show do Dead Fish (confesso nunca ter ouvido falar) realizado poucas semanas antes no mesmo Jockey Club onde Larissa morreria.

Como nenhum blog é uma ilha, e sim um arquipélago, a morte de Larissa repercutiu em outros blogs de seus amigos e conhecidos.

Uma blogueira, que diz ter estado no show, escreveu:

"Neste domingo três pessoas morreram em Curitiba num show que deveria ser "unidos pela paz". Duas delas, Mariá de Andrade Souza e Larissa Seletti, eram amigas da minha irmã e ex alunas da minha mãe. Eu estava no show e vi o corpo da Larissa estendido, coberto por um casaco e sem bolsa, tênis, celular, nada, pq além de matarem ainda roubaram. Só me resta esperar justiça."

No mesmo blog, outra menina, Beatrice, respondeu:

"É muitu tristi mesmu, a Larissa e a Mariah eram do meu colegio, Colegio Marista Santa Maria, e sow em pensa, q ninguem tevi coragem de ajuda elas, elas tavam taum felizes, pois tinham recuperadu 1 indicador ondi ainda estavam pendentis no colegio."

Alguns meses depois da tragédia, o blog de Larissa foi tirado do ar.

* * *

Os termos de uso do
Blig, onde ficava o blog da Larissa, dizem que o serviço se dá o direito de excluir qualquer blog ocioso por mais de 45 dias. Mais radical, o Blogger brasileiro
apaga automaticamente qualquer blog parado por mais de dois meses.

Os americanos são mais tolerantes: o
Blogger e o LiveJournal
deixam os blogs no ar indefinidamente a não ser que a família faça um pedido formal para que seja apagado.

Os velórios virtuais brasileiros precisam de movimento constante para não desaparecerem.

* * *

Blogueiro, em geral, é jovem. Jovem, quando morre, é morte súbita. Imprevisível.

Os amigos do morto vão ao blog e ainda não acreditam no que aconteceu. É como se esperassem um novo post a qualquer momento. Daqui a pouco, vocês vão ver, ele vai falar do Zeca Pagodinho ou do caso da Luma e do bombeiro.

Mas, dia após dia, nenhum post novo.

Finalmente, alguém faria o primeiro comentário. Talvez um aviso (olha só, gente, o fulano morreu anteontem) ou um desabafo (cara, não acredito que você morreu!), quem sabe até uma mensagem à família (meus pêsames nesse momento etc).

Uma vez feito o primeiro, o dique estaria aberto. Os amigos do morto iriam começar a conversar entre si através dos comentários, consolando um ao outro, trocando anedotas do falecido, postando fotos.

O e-mail avisando da missa de sétimo dia iria incluir um link para o blog. Os pais ou esposa postariam alguma mensagem.

Um verdadeiro velório virtual.

Com o passar dos anos, os amigos não apagariam o blog dos seus favoritos. Voltariam lá quando sentissem saudades do falecido. Releriam velhos posts, cheios de vida e alegria. Confeririam os novos comentários. E, nas datas comemorativas, aniversário de morte ou de nascimento, o blog seria o ponto de encontro de uma verdadeira romaria virtual de saudosos.

Nada disso é teoria. Já está acontecendo em centenas de blogs ao redor do mundo.

* * *

Desde que escrevi sobre o
blog do Alex Teixeira
, vários leitores foram lá deixar comentários de pêsames e encorajamento para a Bia, sua viúva. Ela inclusive fez um novo post em agradecimento.

Rebecca Kris morreu em um acidente de carro em janeiro de 2002, mas
seu blog
continua bem vivo para amigos e parentes, que já deixaram quase 200 mensagens de amor e saudades. Ironicamente, seu nick era "lucky me" ou, sortuda.

Brian Faughnan desapareceu durante uma caminhada nas montanhas em julho de 2002. Seu pai criou um
blog
especialmente para agir como uma central de informações para amigos e parentes durante a busca. Brian ainda não foi encontrado.

Os amigos de Scott Vice, falecido em julho de 2002, converteram seu blog particular em
um blog público
. Hoje, qualquer um pode fazer posts compartilhando histórias ou fotos do amigo. O resultado final é uma das mais belas homenagens que uma pessoa pode receber.

Nem todo blog de pessoa morta precisa ser triste.

O diário de Samuel Pepys (1633-1703) cobre uma das épocas mais tumultuadas da história britânica, incluindo a morte de Oliver Cromwell, o grande incêndio de Londres e o reestabelecimento da monarquia. Agora, o diário está sendo publicado em forma de
blog
, uma entrada por dia. É quase como se Pepys estivesse blogando, ao vivo, direto do século XVII.

* * *

A Internet fez muitas promessas de mudança: mudar o modo como fazemos compras, procuramos empregos ou até mesmo lemos jornal.

Quem diria que uma das coisas que a Internet mudaria seria o modo como velamos nossos entes queridos, uma das mais consolidadas tradições humanas.

Em algum futuro dois de novembro, quem sabe, bastará uma peregrinação por meia dúzia de blogs para estarmos em dia com nossos mortos.

Links Relacionados:

Outros Caminhos
- O blog de Alex Teixeira
O Blog da Menina Morta
- Mais detalhes sobre o blog de Larissa Seletti
Bex
- O Live Journal de Rebecca Kris
Brian Faughnan - A Missing Person
- Blog sobre a busca à Brian Faughnan
Freudian Slop
- Belíssima homenagem à Scott Vice
Pepy's Diary - O diário on-line de Samuel Pepys

Publicado na Tribuna da Imprensa, em Mar.12, 2004

7.9.05

Ficou Difícil




Ficou difícil
Tudo aquilo, nada disso
Sobrou meu velho vício de sonhar
Pular de precipício em precipício
Ossos do ofício
Pagar pra ver o invisível
E depois enxergar

Que é uma pena
Mas você não vale a pena
Não vale uma fisgada dessa dor
Não cabe como rima de um poema
De tão pequeno
Mas vai e vem e envenena
E me condena ao rancor
De repente, cai o nível
E eu me sinto um imbecil
Repetindo, repetindo, repetindo
Como num disco riscado
O velho texto batido...
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6.9.05

No Exato Automóvel

Daniel Filipe

No exato automóvel, viajamos.
Em corpo e nervos, sal, angústia, grito.
Suor, temor da noite, aonde vamos?
Direita, esquerda? (Cruzamento) . Hesito.

Onde? Por onde? Somos dois, calados.
A chuva alaga o universo à volta.
A beira dágua, acenam-nos soldados.
Soam no escuro os passos de uma escolta.

Finco as mãos no volante. Derrapagem
— ou medo apenas do que vai comigo?
Já está próximo o termo da viagem.
Apertamos as mãos. "Saúde, amigo".
 
__________________________________________________________
 
*Em 1925 nasceu Daniel Damásio Ascensão Filipe na ilha da Boavista, em Cabo Verde.
Ainda criança, veio para Portugal onde fez os estudos liceais. Poeta, foi colaborador nas revistas Seara Nova e Távola Redonda, entre outras publicações literárias. Combateu a ditadura salazarista, sendo perseguido e torturado pela PIDE.
Num curto espaço de tempo, a sua poesia evoluiu desde a temática africana aos valores neo-realistas e a um intimismo original que versa o indivíduo e a cidade, o amor e a solidão.
Faleceu em 1964 em Cabo Verde.
Jornalista e poeta. Co-diretor dos cadernos “Notícias do Bloqueio”, colaborou também assiduamente na revista “Távola Redonda” e realizou, na Emissora Nacional, o programa literário “Voz do Império”. Daniel Filipe iniciou a sua atividade literária em 1946 com Missiva, seguindo-se Marinheiro em Terra (1949), O Viageiro Solitário (1951), Recado para a Amiga Distante (1956), A Ilha e a Solidão (1957) – Prémio Camilo Pessanha; o romance O Manuscrito na Garrafa (1960), A Invenção do Amor (1961) e Pátria, Lugar de Exílio (1963).
 
 

Pensamento

"Com o tempo você vai percebendo que para ser feliz com outra pessoa, você precisa em primeiro lugar, não precisar dela. Percebe também que aquela pessoa que você ama ou acha que ama, e que não quer nada com você, definitivamente, não é a pessoa da sua vida. Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você. O segredo é não correr atrás das borboletas... é cuidar do jardim para que elas venham até você. No final das contas, você vai achar, não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você..!"
Mário Quintana

5.9.05

Para Viver Um Grande Amor

Vinicius de Moraes


Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso -- para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... -- não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro -- seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada -- para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade -- para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô -- para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito -- peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista -- muito mais, muito mais que na modista! -- para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs -- comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto -- pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente -- e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia -- para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que -- que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada -- para viver um grande amor.


*Texto extraído do livro "Para Viver Um Grande Amor", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1984, pág. 130.