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Recomeçar


Recomeça...

Se puderes

Sem angústia

E sem pressa.

E os passos que deres,

Nesse caminho duro

Do futuro

Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances

Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,

Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.

Sempre a sonhar e vendo

O logro da aventura

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

Onde, com lucidez, te reconheças...


Miguel Torga


Nome:
Local: Porto Alegre, RS, Brazil

Procurando respostas...

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4.7.07

Cora Ronai

As Bestas da Barra e sua 'diversão' sinistra
A sociedade deve um abraço apertado e um sincero pedido de desculpas a Sirley Dias
Cora Rónai

Não gosto de futebol, mas entendo perfeitamente que milhões de pessoas achem muito divertido ir aos estádios ou sentar em frente à televisão para acompanhar jogos e campeonatos. Também detesto escalada, mas não é difícil imaginar por que tanta gente se diverte escalando; ou fazendo crochê, ou participando de maratonas, ou jogando sudoku, ou indo a bingos, ou se jogando em raves, ou curtindo tantas outras atividades que não chegam a se enquadrar no meu conceito de diversão. Mas, por mais esforço que faça, não consigo - mas não consigo mesmo - imaginar como alguém se diverte massacrando outro ser vivo.

Tenho pensado nisso desde que li que cinco criaturas, supostamente humanas, pararam o carro num ponto de ônibus para agredir uma mulher indefesa, a quem não conheciam e que não lhes tinha feito qualquer mal, apenas para se divertir; nem percebo o que há de tão engraçado na cena para que o inocente do grupo tente escapar à punição que merece alegando que chutar não chutou, apenas ficou de lado, confessadamente 'rindo e debochando'.

Pergunto: isso é uma reação normal? Ou eu é que vivo num outro mundo, e não estou acompanhando os novos tempos? É engraçado ver uma mulher, humilde ainda por cima, apanhando, desesperada, de quatro marmanjos?! É divertido chutar alguém? É bom causar sofrimento? Distrai? Relaxa? De onde vem o barato, dos gritos da vítima ou dos pés que deformam o rosto?

A impunidade, essa praga que sufoca o país, tem sua parte na história, mas não lhe muda a essência. Não é porque 'não vai acontecer nada' que alguém tem prazer em espancar uma criatura mais fraca; é porque não guarda mais qualquer vestígio de bons sentimentos, qualquer sinal de compaixão, qualquer capacidade de se pôr no lugar do outro. A cadeia, num caso desses, serve para proteger a sociedade de indivíduos que, obviamente, não estão preparados para conviver com os demais; mas não os protege de si mesmos, ou do seu fracasso como seres humanos.
* * *

Deu no jornal: o padrasto de Felippe de Macedo Nery Neto declarou ao delegado que o enteado ganhara o carro usado pelo grupo dois dias antes. Declarou também que ele sofre de déficit de atenção e hiperatividade, seja isso o que for, e que toma dois remédios de venda controlada, como se fosse alguma espécie de atenuante. Não é. Todos conhecemos pessoas que tomam medicamentos de venda controlada, e que nem por isso saem por aí atacando desconhecidos. Por outro lado, se a moléstia dessa besta é tão incapacitante, que se aplique punição também a quem a deixa solta e, ainda por cima, lhe põe um carro nas mãos.

Felippe, vale lembrar, foi o mancebo que declarou à polícia ter confundido Sirley com uma prostituta -- exatamente como Tomaz de Oliveira, Max Rogério Alves, Eron Chaves Oliveira e Antônio Novely Cardoso de Vilanova, que há dez anos atearam fogo ao índio Galdino e, em sua defesa, alegaram tê-lo confundido com um mendigo.

Aliás, quanto mais os pais dos agressores se manifestam, mais clara fica a origem do comportamento dos monstros que criaram. No mesmo jornal que trazia o depoimento do padrasto de Felippe, Ludovico Ramalho, pai de Rubens Arruda, fazia um retrato falado da decomposição social do país:

-- Queria dizer à sociedade que nós, pais, não temos culpa. Mas não é justo manter presas crianças que estão na faculdade, estão estudando, trabalham. Não concordo com a prisão na Polinter, ao lado de bandidos. Vão acabar com a vida deles. Peço ao juiz que dê uma chance aos nossos filhos.

Depois, explicou que Sirley estava cheia de hematomas por ser mulher, e 'ficar roxa com apenas uma encostada'. Suponho que ele tenha dado muitas encostadas em mulheres para falar com tal conhecimento de causa.

Sinceramente? Tenho pena dos bandidos da Polinter, que serão obrigados a conviver com essas 'crianças', esses mauricinhos psicopatas que se consideram tão superiores.
* * *
O que aconteceu com Sirley não foi uma atrocidade ocasional. Empregadas que têm a infelicidade de esperar condução no horário em que rubens e felippes voltam das noitadas são invariavelmente humilhadas por esses cretinos motorizados, que diminuem a velocidade das máquinas quando passam pelos pontos de ônibus:

- Vai trabalhar, paraíba! - gritam os inúteis. - Tem que ralar mesmo, mocréia!

Como em geral fica só por isso, elas engolem a mágoa e não dizem nada. Quando dizem, revelam-se acostumadas, como se fosse possível a alguém acostumar-se à maldade e ao preconceito.
* * *

Quanto a eles, aposto que têm, todos, um futuro brilhante: a política os aguarda de braços abertos. No Congresso Nacional, há lugar de sobra para gente com os antecedentes de Rubens Arruda, Felippe de Macedo Nery Neto, Leonardo Andrade e Júlio Junqueira.

Guardem esses nomes!

3.7.07

Como Disse A Ministra

Diferenças

E Nós Contamos Os Corpos

TEXTO LIDO PELO VOCALISTA DOS DETONAUTAS NA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO
RIO DE JANEIRO

E NÓS CONTAMOS OS CORPOS...

"Os Deputados, Senadores, Prefeitos, Governadores e Presidentes, desfrutam
de muitos privilégios PAGOS com o dinheiro do povo. E nós contamos os corpos...

Seus filhos estudam em colégios particulares e muitos de seus parentes
quando precisam são atendidos em excelentes hospitais que não
pertencem à rede pública. ANDAM EM CARROS BLINDADOS e moram em locais
da cidade protegidos por seguranças particulares. E nós contamos os
corpos...

55% dos deputados estaduais residentes nesta Assembléia Legislativa estão
respondendo a processos cíveis, criminais ou eleitorais, enquanto você
sequer pode prestar concurso público se estiver envolvido em algum
processo judicial. E nós contamos os corpos...

Os políticos brasileiros são processados por fraudes, corrupção,
desvio de verbas ou qualquer crime cometido ao longo de seu mandato
TEM DIREITO A JULGAMENTO EM FORO PRIVILEGIADO. Até o momento nenhum
político envolvido nos crimes e nos escândalos de corrupção que
acompanhamos pelos jornais e TVs foi parar atrás das grades. Isso se
chama IMPUNIDADE.
E nós contamos os corpos...

Verbas que deveriam ser destinadas a Rede Pública de Ensino, aos Hospitais,
à Segurança de nossas Comunidades são desviadas por muitos destes
cidadãos que deveriam nos defender e nos representar.

E nós contamos os corpos...

O Supremo Tribunal Federal retomou dia primeiro de março o julgamento de
recurso destinado a garantir o foro privilegiado a "agentes políticos"
processados por improbidade administrativa, mesmo que já tenham
deixado o cargo. Dos 11 ministros do STF seis já votaram a favor dos
políticos e um contra. Restam votar 4 ministros. A medida, se
aprovada, impedirá que ministros de Estado e o presidente da república
sejam fiscalizados por procuradores na primeira instância da Justiça,
como ocorre hoje. Além de paralisar os processos em andamento a
decisão do STF permitirá que administradores já condenados possam
pedir a RESTITUIÇÃO de valores que foram obrigados a devolver aos
cofres públicos. Cerca de 10 mil inquéritos e ações judiciais contra
autoridades acusadas de corrupção podem ser arquivadas. Os defensores
do foro privilegiado querem que presidentes, ministros, governadores e
prefeitos envolvidos em corrupção não sejam mais atingidos pela lei. O
Código Penal Brasileiro é de 1940.

E nós contamos os corpos...

Um soldado da policia militar ganha 800 reais por mês. Um professor
ganha em média 400 reais por mês. Um médico do SUS ganha em média
1.500 reais. O Estado gasta em média com nossas crianças 300 reais por
mês. Um preso custa aos cofres públicos em média 800 reais por mês e
todos nós sabemos que o Estado não oferece nas penitenciárias NENHUMA
CONDIÇÃO DE REABILITAÇÃO dos apenados, cabendo à sociedade arcar com
todos estes custos. Mas os salários dos nossos políticos passam de
QUINZE MIL REAIS mensais.

E nós contamos os corpos...

O Rio de Janeiro está em guerra enquanto nossos representantes não fazem
nada.

E nós contamos os corpos...

Fim da impunidade. Fim da imunidade parlamentar. Fim do voto secreto
no Congresso Nacional. Queremos segurança, educação e saúde de
qualidade pois pagamos por isso. SEM JUSTIÇA NÃO HÁ PAZ.

Deputados assumam suas responsabilidades pois elas são do mesmo
tamanho de seus privilégios. Enquanto nós contamos os corpos.

VOCÊ AINDA VAI QUERER DIZER QUE NÃO QUER SABER DE POLÍTICA?

Sobre O Espancamento De Sirlei

"Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar".
(Bertold Brecht).
 

Patrícia Curi Gimeno

Onde estão os cidadãos indignados que tão prontamente se vestem de branco e aderem a passeatas e protestos transmitidos pelas emissoras de TV em nome da paz? Onde foi parar a indignação cega que não titubeia em solicitar prisões e endurecimento das leis à justiça brasileira? Onde estão as pessoas assustadas, que em nome dos cidadãos "honestos" não temem em colocar o dedo em riste em direção aos bandidos, criminosos e marginais que, dizem, tem tornado a vida dos brasileiros tão difícil? Onde foram parar? Onde está a mídia com suas matérias especiais cheias das dores e das lágrimas que alimentam a indignação cega dos crédulos em sua imparcialidade? Onde foi parar o medo e o horror dessas pessoas?

  

No domingo, dia 24 de junho de 2007, uma mulher chamada Sirlei Dias Carvalho Pinto – sim, ela tem nome e sobrenome – de 32 anos, empregada doméstica foi espancada, humilhada, xingada e roubada. Mas não pelo sujeito negro e pobre que a consciência racista e preconceituosa de nossa sociedade esperava e, afirmo sem medo, desejava. Ela foi espancada, humilhada, xingada e roubada por cinco bandidos que a mídia conivente não tem a decência de classificar como tal. Os "rapazes", como afirma o Jornal Folha de São Paulo, são estudantes universitários, certamente brancos, bem alimentados e, apesar das dúvidas que emanam do caso, foram supostamente bem educados. Porém, ao que tudo indica, a pobreza de Sirlei, aliada ao "berço de ouro" dos criminosos adormeceu qualquer possibilidade de indignação espontânea por parte da amedrontada sociedade brasileira. Porém, eis a surpresa: Rubens Arruda, Felipe Macedo Nery Neto, Júlio Junqueira, Leonardo de Andrade e Rodrigo Bassolo são criminosos, sim. Mas é preciso dizer; eles não estão sozinhos. A escola na qual aprenderam tamanha crueldade não foi a cadeia, mas a sociedade racista, preconceituosa, sexista e cínica na qual vivemos.

As declarações dadas por Ludovico Ramalho Bruno, 46 anos, empresário do setor naval e pai de um dos bandidos em questão, com toda sua vileza, tornou-se o representante nomeado dessa sociedade que apodrece.

Mas não são apenas as suas declarações. A própria reportagem editada pela Folha de São Paulo, atende tão bem quanto Ludovico, ao papel de representante de nossa podridão e cinismo. Nela descobrimos que Sirlei cogita, junto com seu advogado Marcus Fontenele, mover uma ação contra os criminosos por danos morais, físicos, estéticos e financeiros. Um rol bastante significativo de danos. Mas, com espanto, descobrimos também o seu valor para o jornal: "Ela vai ficar sem trabalhar por um bom tempo". É esse, então, Folha de São Paulo, o pior que aconteceu e acontecerá a Sirlei? É possível mesmo que ela só tenha isso a perder? Como é possível escamotear o fato de que os cinco bandidos julgaram que ela fosse uma vagabunda, uma prostituta? Mas como diz nosso senso comum, somos uma sociedade de memória fraca. Por isso, é importante lembrar. Mulheres podem ser confundidas com vagabundas e prostitutas, assim como índios podem ser confundidos com mendigos. É assim, então, que se consegue legitimar crimes bárbaros nessa sociedade? É assim que se limpa a consciência de um país? Quem foi que ensinou esses a esses bons "rapazes" que prostitutas valem tão pouco? Quem foi que lhes disse que é legítimo espancar, roubar e humilhar prostitutas?

Mas a matéria não pára aí. Seu responsável nos faz notar ainda que Ludovico tornou-se vítima de um tiroteio entre Policiais Militares e traficantes na Ilha do Governador enquanto negociava a rendição do filho. Pobre coitado. Afinal, é essa a parte da sociedade da qual ele quer livrar os "rapazes". Ele não tem nada a ver com os crimes que ocorrem nas favelas do Rio e do resto do país. Ele é apenas mais uma vítima, não é mesmo? O cinismo de suas declarações certamente ganha um toque especial com o cinismo e hipocrisia da reportagem.

Contudo, há mais. Felipe Macedo Nery Neto, o "único a manter uma postura agressiva", segundo o jornal, enquanto os outros choram e se dizem arrependidos, afirma em sua página no Orkut que um dos seus maiores prazeres é espancar pessoas sem que elas possam se defender. Pronto. Problema resolvido. Os outros "rapazes" certamente foram apenas vítimas da mente deturpada e sádica do amigo Felipe Macedo. Eles não queriam fazer isso não é mesmo? Eles apenas seguiam o impulso bárbaro do valentão sádico do grupo. O filho de Ludovico, e os demais, terão suas penas atenuadas – isso se houver punição – diante da descoberta de autoria do crime. A sentença, portanto, que como em outros casos precisa ser construída pela mídia na mente das pessoas, já está em curso.

Mas eis que chegamos, enfim, às declarações vis do empresário naval:

"Eles não são bandidos. Tem que criar outras instâncias para puni-los". Quer dizer que eles estão acima da lei? As que existem valem apenas para os outros? O fato de que os cinco bandidos não carregam no corpo as marcas da pobreza e da negritude é suficiente para relativizar e desculpar seus atos?

"Queria dizer à sociedade que nós, pais, não temos culpa nisso. Eles cometeram erro? Cometeram. Mas não vai ser justo manter crianças que estão na faculdade, estão estudando, trabalhando, presos. É desnecessário, vai marginalizar lá dentro. Foi uma coisa feia que eles fizeram? Foi. Não justifica o que fizeram. Mas prender, botar preso, juntar eles com outros bandidos... Essas pessoas que têm estudo, que têm caráter, junto com uns caras desses? (...) Não é justo prender cinco jovens que estudam, que trabalham, que têm pai e mãe, e juntar com bandidos que a gente não sabe de onde vieram. Imagina o sofrimento desses garotos.". Mas, afinal, Ludovico, eles têm pais, ou não têm? É verdade, eu me esqueci, o problema não é seu, é das drogas. É da epidemia de drogas que assola o país. Sua covardia é assombrosa e reveladora. Quer dizer que o problema dos presos de quem você quer afastar seu filho, como se eles fossem portadores de alguma peste, é não terem pai e mãe? Falha minha, novamente? Eu me esqueci, são somente os pobres que sofrem de "problemas estruturais na família", certo? É nisso que devo acreditar? Seu filho com 19 anos cometeu um ato "feio"? Isso, Ludovico, é o que digo à minha filha de 2 anos de idade quando ela resolve ser mal-criada. Não vale para quem espanca, rouba e humilha conscientemente outra pessoa por julgar que seus atos não condizem com uma moral machista e odiosa. Seu filho e os outros, diferente do que você diz, não têm qualquer caráter.

"Existem crimes piores. (...) Peguei a senhora que foi agredida, abracei, chorei com ela e pedi perdão. Foi a primeira coisa que fiz quando vi a moça, foi o mínimo que pude fazer". Julgar que seu abraço e seu choro são suficientes, sinhozinho, é de tudo, o mais doloroso de suas declarações. Porque é preciso acreditar realmente, que o que foi feito à Sirlei não é grave, que ela vale pouco ou quase nada e que, portanto, o mínimo é suficiente. Pois não é. Não para mim. Quero que seu filho e os outros criminosos que agiram com ele sejam julgados com as leis que existem. Quero ver uma declaração menos cínica dos problemas que assolam esse país e que, sem dúvida, não se resumem às drogas. Quero ver os cidadãos "honestos" que estão sempre prontos a criminalizar a pobreza, a pedir pena de morte, redução da maioridade penal terem coragem de defender essas bobagens agora. O problema é que talvez eu queira um outro país.

Meu nome é Patrícia Curi Gimeno, tenho 29 anos, sou estudante universitária, faço mestrado em Antropologia. Sou da classe média, branca, bem nascida, e educada. E apesar de ter nascido neste país e convivido com o mesmo discurso podre sobre a periculosidade dos pobres, apesar de ser bombardeada diariamente com a imagem de um país amedrontado pelo crime não acredito na pena de morte, não acredito na redução da idade penal, não acredito que pobres sejam perigosos assim como não compartilho com a moral apodrecida dos que julgam legítimo ou pouco condenável o ataque covarde a mendigos, prostitutas, meninos e meninas de rua, homossexuais, pobres, negros, supostos bandidos, etc etc etc. Mas, sobretudo, jamais deixarei que minha filha acredite que o silêncio seja uma opção. Vou ensiná-la que a dor, a injustiça, o engano e a guerra nunca podem nos ser indiferentes. É preciso acreditar que esse país pode mudar.