Image hosted by Photobucket.com

Recomeçar


Recomeça...

Se puderes

Sem angústia

E sem pressa.

E os passos que deres,

Nesse caminho duro

Do futuro

Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances

Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,

Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.

Sempre a sonhar e vendo

O logro da aventura

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

Onde, com lucidez, te reconheças...


Miguel Torga


Nome:
Local: Porto Alegre, RS, Brazil

Procurando respostas...

Zoundry Blog Writer

Tire todas as suas dúvidas sobre blogs.

Divulgue o seu blog!

All Images Hosting

Follow sansei10 on Twitter

23.4.10

Lei Seca: Justiça Questiona Bafômetro Como Única Prova Criminal

Publicada em 22/04/2010 às 23h28m

RIO - Ao conceder um habeas corpus no último dia 13, a 4ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça decidiu, por maioria de votos, que o teste de bafômetro, mesmo positivo, não é suficiente para a abertura de um processo criminal por embriaguez ao volante. No caso analisado, o motorista apresentava mais de 6dg de álcool por litro de sangue. Para os desembargadores, no entanto, o teste do bafômetro, sozinho, não comprovou o chamado "perigo concreto à coletividade". Eles acolheram os argumentos da defesa do réu, de que a direção perigosa deveria ser atestada por testemunhos. 

O Globo 

O motorista foi abordado numa blitz da Lei Seca em 18 de dezembro. O teste do bafômetro revelou que ele tinha 0,42mg de álcool por litro de ar expirado ou 8,4dg de álcool por litro de sangue. Mesmo assim, os desembargadores consideraram que não houve prova de que o réu estivesse "conduzindo o veículo de forma anormal".

Os desembargadores também consideraram inaceitável que o motorista que se submete ao teste de forma espontânea seja punido criminal e administrativamente, enquanto aquele que se nega, alegando o direito de não produzir provas contra si mesmo, responda apenas a processo administrativo. 

 

21.4.10

Erro Até O Final

Erro até o final 

 O leilão de Belo Monte foi vencido pelo pior consórcio; o que foi montado na véspera, às pressas e pelo próprio governo. A participação da Queiroz Galvão ainda não estava certa. Regras estão sendo mudadas para beneficiar o vencedor.
E mais: quando a usina começar a produzir, o país estará com uma folga de 4.000 MW. O governo continua errando em Belo Monte. 

Ontem à tarde circulou a informação de que a Queiroz Galvão estava fora do consórcio que venceu. Isso enfraqueceria ainda mais o grupo. Uma fonte da empresa me informou o seguinte: 
- O grupo está fora por enquanto. Tudo depende de uma reunião que a Chesf está tendo agora na Casa Civil. 

Esse grupo que se formou foi improvisado. Formou-se na sexta-feira. Foi preciso que a Aneel adiasse o prazo final de inscrição para dar tempo de formar o grupo que até a undécima hora não existia. Só existe porque 49,9% do capital é da Chesf. O outro, o que foi derrotado, passou meses estudando o projeto com 150 especialistas. Também se pendurou em duas estatais, mas, pelo menos, estudou o projeto durante meses.

Numa reunião na semana passada, no consórcio que perdeu, um dos empresários ainda sustentava que o custo da hidrelétrica seria de R$32 bilhões. Refeitas todas as contas, por insistência do executivo de outra grande empresa do grupo, chegou-se a R$26 bilhões. O governo alega que a obra será de R$19 bilhões e que o produtor se remuneraria com uma tarifa de R$83 o MW/hora. 
Na verdade, tem muito truque embutido para tornar aparentemente mais barata a energia hidroelétrica. Um deles é o seguinte: se há um autoprodutor no consórcio, o grupo pode vender 10% da energia para esse autoprodutor e mais 20% no mercado livre por um preço maior. 

Autoprodutor é uma empresa como a Vale e a Votorantim, ou seja, que vai usar parte da energia em seus próprios projetos. A Votorantim produz alumínio na região, e a Vale vai construir três siderúrgicas. Tendo dois autoprodutores, eles poderiam se beneficiar dessa regra. Venderiam a R$82,90 para o consumidor cativo, e venderiam 20% no mercado livre a um preço maior. Além disso, o autoprodutor do consórcio tinha a vantagem de poder ficar com a energia livre de qualquer imposto. 

O outro grupo não poderia se beneficiar dessa regra por não ter autoprodutor. Sendo assim, a regra é clara, ele só pode vender 10% no mercado livre. O problema é que no final do dia a Aneel disse que o grupo pode sim se beneficiar da regra de vender apenas 70% pelo preço que ofereceu no leilão, R$77,9. Nem os especialistas entenderam. 

- O Bertin se declarou autoprodutor, mas para isso ele teria que consumir 400 MW médios. Eu não sei de nenhum projeto tão grande que a Bertin esteja construindo. Isso é energia equivalente a que a CSN consome - explica o consultor Mário Veiga, da PSR. 

Mário Veiga é um entusiasta da energia hidrelétrica, e portanto é a favor da construção de Belo Monte. Mas ele diz duas coisas: Primeiro, a energia de Belo Monte sai por R$100 o MW/hora, e não pelo preço máximo (R$83) que o governo estabeleceu, e muito menos pelo que foi oferecido pelo grupo vencedor (R$77,9). Segundo, ele lamenta que tudo tenha sido feito como foi feito: 

- Era uma oportunidade de se fazer tudo direito, convencendo a sociedade da necessidade e oportunidade de explorar o potencial hídrico. Feito às pressas com tudo atropelado, e ainda com mudança das condições financeiras já muito favorecidas nos últimos dias do leilão, só se consegue aumentar as resistências.
Hoje, Belo Monte tem todo tipo de opositor: quem acha que o processo de licenciamento foi mal feito; ou críticos por razões ambientais; outros a favor da hidrelétrica mas que não concordam com o processo; e quem está preocupado com o custo fiscal e o excesso de subsídios. 

Ele explica que a pressa no caso não justifica esses métodos: 

- Em 2008, o país contratou muita energia para ser entregue em 2013 porque o crescimento era forte. O problema é que em 2009 o país não cresceu, e a demanda caiu. Mesmo projetando-se crescimento de 5% ao ano até 2013, chegaremos a 2014 com folga de 4 mil MW. Ou seja, seria muito mais razoável adiar o leilão, rediscutir o projeto e fazer com mais apoio da sociedade no ano que vem. 

O professor Carlos Vainer, do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano Regional da UFRJ, reafirma que Belo Monte só será economicamente viável se outros barramentos forem feitos no rio:

- É um dia triste. Belo Monte é uma catástrofe social e ambiental. Só no capitalismo brasileiro se viu uma licitação com duas holdings contendo duas subsidiárias estatais uma contra a outra. Tivemos uma grande operação financeira para bancar uma usina de baixo rendimento e alto impacto social e ambiental. A conta só fecha porque o Estado está assumindo o custo e a população não foi consultada. 

Vainer lembra que haverá grande desperdício nas linhas de transmissão, que chegarão a 2 mil quilômetros de distância dos grandes centros.

As contestações judiciais vão continuar. O governo cometeu várias irregularidades durante todo o processo. Há um rio de dúvidas em Belo Monte.

18.4.10

Os Abusos De Poder De Lula

Os abusos de poder de Lula


 


JOSÉ ÁLVARO MOISÉS

Existe relação entre a posição do governo quanto aos perseguidos políticos de Cuba, os desrespeitos do presidente à legislação na campanha eleitoral e a irresponsabilidade com que ele e outras autoridades públicas reagiram às catástrofes e mais de 250 mortes no Rio de Janeiro e em Niterói?

Nas últimas duas décadas o Brasil reconquistou o regime democrático. Não está em questão se a democracia existe, mas a sua qualidade. Os escândalos de corrupção, as tentativas de cerceamento da liberdade de imprensa e o discutível desempenho do Congresso Nacional mostram que a consolidação da democracia não depende apenas de votar e escolher governos.

A democracia é mais do que isso. Ela se baseia na soberania popular para ser efetiva e depende de que as instituições que previnem o abuso de poder e asseguram o equilíbrio entre Executivo, Legislativo e Judiciário funcionem a contento, sem sofrer ameaças veladas ou não de governantes ou de seus competidores. Não basta ter uma Constituição para garantir o império da lei, a vigência de direitos individuais e sociais e a obrigação dos governantes de prestar contas de suas ações e se responsabilizarem por elas.

O papel dos líderes que se dizem democratas é essencial, pois eles não são apenas mandatários de cargos administrativos, têm de dar o exemplo de correção e probidade no trato dos interesses públicos e, diante das incertezas próprias da democracia, têm o dever de orientar e educar os cidadãos para respeitarem a lei e as decisões coletivas, conviver com o pluralismo político e aceitar que, além da maioria, as minorias também têm direitos - princípios que distinguem o regime democrático de suas alternativas.

Atualmente, essas qualidades de liderança estão em falta no Brasil. A despeito de seus méritos, como manter a estabilidade econômica e ampliar as políticas sociais de seu antecessor,
Lula virou as costas para valores democráticos fundamentais, revelando ao final de dois mandatos outros aspectos de sua personalidade política. Supõe às vezes estar acima da lei, burla o princípio de igualdade política e mistifica a crença dos eleitores de baixa renda, condenados a baixos níveis de educação, por isso mesmo menos críticos diante de quem usa o prestígio da Presidência para fazer crer que é o único autor dos avanços recentes do País.

No caso de Cuba, em vez de reconhecerem a opressão aos perseguidos políticos do regime e a ofensa a direitos assegurados pela Carta da ONU, Lula e os seus se solidarizaram com os dirigentes cubanos que arbitram autoritariamente sobre a vida dos perseguidos do regime, debochando do sentido político da greve de fome como forma de protesto. Lula desqualificou a sua própria experiência na luta contra o regime militar e igualou essa luta à ação de criminosos comuns; ofendeu milhares de perseguidos e torturados no mundo inteiro e gente de seu governo que sofreu perseguição no passado. O silêncio ou a abstenção do governo brasileiro em votações na ONU destinadas a condenar o desrespeito aos direitos humanos na Coreia do Norte, no Irã, no Sudão, no Congo e no Sri Lanka, ou a tolerância à destruição da democracia na Venezuela de Chávez, iluminam outros lados do quadro.

Nesses casos, Lula deixou de lado a posição majoritária dos brasileiros a favor da democracia verificada em pesquisas de opinião. Na campanha por sua candidata à Presidência, em flagrante desrespeito às leis eleitorais, tem se utilizado dos benefícios do cargo há mais de dois anos para fraudar o princípio de igualdade política. Multado pela Justiça Eleitoral, desqualificou as penalidades, convidou o público a debochar das regras e deu a entender que, diferente dos outros cidadãos, despreza as exigências da legislação. A repercussão negativa o levou a pedir cuidado aos ministros, conclamando-os a serem republicanos. Mas o embuste é flagrante - senão a ignorância de Lula quanto ao significado do conceito de res-pública -,pois antes e depois da advertência não se controlou em eventos e inaugurações oficiais, publicizando a sua candidata.

A indiferença de Lula diante dos mecanismos de controle dos Poderes republicanos é evidente. Seu governo desconhece o conceito de accountability, como ficou evidente no caso do mensalão e dos desmandos de José Sarney. Mais dramática ainda foi sua atitude diante das catástrofes no Rio de Janeiro e em Niterói. Primeiro, apelou aos céus diante das chuvas; depois, anunciou a liberação de R$ 200 milhões para ações de emergência e, finalmente, quando veio a público o relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) mostrando que o Ministério da Integração Nacional liberou, em dois anos, mais de 64% de recursos para emergências à Bahia do ex-ministro Geddel Vieira Lima, e menos de 1% para o Rio de Janeiro, Lula chamou o relatório de "leviano".

Não é a primeira vez que ele desqualifica as decisões do TCU. Em mais de uma ocasião, quando gastos indevidos foram identificados pelo tribunal, o presidente se comportou como se não tivesse obrigação de dar explicações ao País. Até agora, nem ele nem seu ex-ministro apresentaram os critérios usados na distribuição dos recursos emergenciais. Ademais, em oito anos de governo, Lula parece não se ter dado conta de que ocupações urbanas de risco não se resolvem com medidas de emergência.
Mas, ao qualificar de "levianas" as críticas do tribunal, deu razão a autoridades como o prefeito de Niterói, que, após vários mandatos à frente da cidade, confessou desconhecer os laudos técnicos que condenaram a urbanização do lixão do Morro do Bumba.
Lula abusa do poder, rebaixa a qualidade da democracia e, pior, estimula outras autoridades a fazerem o mesmo.

 

JOSÉ ÁLVARO MOISÉS É PROFESSOR DE CIÊNCIA POLÍTICA E DIRETOR DO NÚCLEO DE PESQUISA DE POLÍTICAS PÚBLICAS DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

O Bispo Lula E A Polícia

Diogo Mainardi 

"Em 16 de maio, o bispo Lula emulará o presidente Romualdo e dará o passo mais ruinoso de sua carreira. Ele procurará Mahmoud Ahmadinejad em sua cadeia iraniana e negociará com ele 'olho no olho', prometendo ajudá-lo a escapar da polícia dos Estados Unidos e da Europa"

 

O presidente Lula conduz o Itamaraty da mesma maneira que o bispo Romualdo conduz a Igreja Universal. Os dois recomendaram procurar os bandidos nas cadeias e negociar diretamente com eles, dizendo: "Pô, a gente está fazendo um trabalho tão bacana. Pô, todo mundo armado. Pô, a gente é companheiro ou não é?".

O bispo Romualdo, de acordo com a Folha de S.Paulo, resumiu candidamente o espírito desse seu empenho diplomático bilateral: "Nosso problema não é o bandido, nosso problema é a polícia". É o que Lula tem repetido insistentemente nos últimos anos, em todos os encontros internacionais. Ele recomenda procurar os bandidos em suas cadeias e negociar diretamente com eles. Porque o problema, segundo Lula, não é o bandido de Cuba, o bandido de Gaza, o bandido da Coreia do Norte, o bandido da Guiné Equatorial, o bandido da Venezuela – o problema é a polícia.
 
Em 16 de maio, o bispo Lula emulará o presidente Romualdo e dará o passo mais ruinoso de sua carreira. Ele procurará Mahmoud Ahmadinejad em sua cadeia iraniana e negociará com ele "olho no olho", prometendo ajudá-lo a escapar da polícia dos Estados Unidos e da Europa. Lula retribui assim a visita de Mahmoud Ahmadinejad ao Brasil, no fim do ano passado. Um de seus acompanhantes naquela visita foi Esmail Ghaani, que entrou anonimamente no país. Ele era comandante interino das Forças Quds, a unidade de elite da Guarda Revolucionária iraniana. A caminho do Brasil, Mahmoud Ahmadinejad e Esmail Ghaani fizeram uma escala no Senegal. O jornal Al Qanat, publicado no Líbano, em árabe, relatou que Esmail Ghaani usou sua passagem por Dacar para adquirir uma série de docas no porto local, em nome da companhia de fachada IRISL. Nessas docas, a Guarda Revolucionária iraniana pretende armazenar os produtos triangulados da América Latina, a fim de furar o bloqueio comercial imposto pela ONU.

O contrabando é apenas uma das bandidagens praticadas pelas Forças Quds. O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos denunciou-as por treinar, financiar e armar terroristas. O chefe de Esmail Ghaani, Qassem Suleimani, foi punido pela ONU, que congelou seus bens. A Europa acusou a Guarda Revolucionária de comandar o programa nuclear iraniano e passou a perseguir seu conglomerado de empresas por "proliferação de armas de destruição em massa".

O que Esmail Ghaani fez no Brasil? Com quem ele se encontrou? Empresas nacionais negociaram com as empresas de fachada das Forças Quds? Para Lula, nenhuma dessas perguntas importa. Afinal, a gente é companheiro ou não é? Olho no olho com Mahmoud Ahmadinejad, em maio, Lula poderá dizer mais uma vez: "Nosso problema não é o bandido, nosso problema é a polícia". Pô.

A Loba E O Raposão

NELSON MOTTA 

Usar de todos os meios para derrubar a ditadura e convocar eleições gerais livres e abertas a todos os partidos.

 

Seria patriótico e democrático, se não fosse mentira. O objetivo da luta armada no Brasil era trocar uma ditadura por outra, baseada na revolução cubana. Zé Dirceu, Dilma e Tarso Genro se orgulham disto. Cegos de fé, juventude e generosidade, sonhavam com uma ditadura legitima, do bem, porque do povo, do proletariado. Também acreditei nisto, como muitos jovens oprimidos e ingênuos, até que a razão, os fatos e a história me convenceram do engano.

Mas uma loba guerrilheira nunca vai admitir que, além de um erro estratégico e político, a sua luta e o sacrifício de tantos companheiros eram para instituir uma ditadura socialista no Brasil. Dirá que foi pela liberdade do povo. A mesma que os cubanos têm hoje? Ninguém ousa lhe perguntar.

 

Muitos dos seus ex-companheiros de armas, graças à democracia, ocupam postos importantes no governo, e reconhecem que a luta armada foi um erro de avaliação, talvez por excesso de juventude e generosidade. Mas ela nunca reconhecerá, nem que a vaca tussa. Ela não abandonou o barco nem fugiu da luta, não avaliou que seu sacrifício e de tantos companheiros poderia se voltar contra eles, como uma greve de fome, e até atrasar o processo de redemocratização. Mas, para versões bolcheviques de velhos hippies de rabo de cavalo, parece que o sonho não acabou.

 

Cordeiro em pele de lobo, Lula, o raposão, jamais sonhou com uma cubanização do Brasil. Cresceu e se desenvolveu como sindicalista por sua inteligência e capacidade de negociação.
Loba em pele de loba, ela se acostumou a planejar e a mandar - e obedecer ao chefe - no que deve ser competente: é condição indispensável a uma gestora de gestores.

 

Lula também tem um lado lobo, quando esbraveja e bravateia nos palanques, mas deve as maiores conquistas do seu governo, e sua popularidade, à sua formação e aptidão de grande negociador, que o levou a harmonizar partidos, corporações e interesses conflitantes para o sucesso de seus programas econômicos e sociais. Mas a loba ama a luta.

Más Companhias

Más companhias

Editorial

As fanfarronadas com os números da economia nacional são quase incompreensíveis para quem conhece os dados mundiais. O Brasil, com Rússia, Índia e China, faz parte do Bric, a nata na leiteria dos países emergentes.

Pois bem, nos sete anos que vão de 2002 a 2008 (período áureo de Lula), o crescimento do PIB brasileiro foi sempre o menor dentre esses parceiros, exceto em relação à Rússia, no ano passado. Perdemos para todos nas demais 20 comparações de desempenho anual possíveis. E crescemos, sempre, bem abaixo da média do grupo.

Se alguém – vá lá! – considerar que a parceria do Bric é muito exigente, saiba então que, no mesmo período, nosso crescimento foi o 23º entre os 32 países que compõem a América Latina e o Caribe! Por fim, alguém precisa avisar nosso presidente de que as perspectivas nacionais estão longe de ser consistentes porque nenhum país progride de modo sustentável sem altas taxas de investimento e sem um bom sistema de ensino. Quanto ao primeiro fator, andamos abaixo do recomendável.

Quanto ao segundo, mantemo-nos como um país produtor de semianalfabetos, ocupado na ideologização dos alunos, e sonhando com colher belos números de uma economia de empresa enquanto combate o sucesso e exsuda socialismo pelos poros.

Por isso, sempre que ouço o presidente, volta-me à lembrança a heroína Viola, em Noite de Reis, de Shakespeare. Horas tantas, nessa peça, a moça afirma odiar a ingratidão, a mentira, a tagarelice e a embriaguez. Já devo ter referido essa citação "somewhere, some time". Mas as palavras permanecem adequadas. Muito adequadas.

Como nunca antes na história, Lula revela desprezo por tudo que ocorreu no Brasil no pequeno período que vai de 1500 até 2002. Nada feito antes de sua chegada ao poder merece consideração, exceto, talvez, o esforço dele para chegar ao poder.

No entanto, percorra de A a Z o elenco de medidas que retirou o Brasil das severíssimas dificuldades vividas nos anos 80 e 90 e verá que o presidente jogou contra essas providências todo o peso de seu partido, a ampla gama de organizações por ele aparelhadas e as respectivas massas de manobra.

Foi uma campanha tão persistente e demolidora, que arrasou reputações. Se Henrique Meirelles tivesse sido presidente do Banco Central no governo de FH, também teria sido jogado no inferno da maledicência por ter feito exatamente o que agora faz dele um santo nos altares do governo.

Note que os ombros sobre os quais Lula presidente passa o braço protetor são, com raras exceções, os mesmos onde Lula candidato descarregava as culpas dos males nacionais. Em tais afagos, cabem alguns dos maiores – digamos assim – fichas-sujas da nossa era moderna.

Tamanha atração pelas más companhias lhe providenciou uma base parlamentar cuja solidez repousa no encardido balcão das negociações. Não nos surpreendamos, então, com que o sucesso dessa subpolítica interna haja desenhado uma estratégia simétrica na sua política externa.

E lá se foi nosso estadista, a bordo do Aerolula, atrás dos fichas-sujas do planeta, para acolhê-los no lado esquerdo do peito. Mas, caramba! Quem anda em tão más companhias será boa companhia? O leitor sabe: se desse para elogiar os mesmos personagens e abraçar-se aos mesmos parceiros, perderia os amigos e o respeito da família.


Zero Hora - RS - Percival Puggina


A Conversa Do Cara Com Obama Durou 3 Minutos E 45 Segundos

Augusto Nunes


"O Obama já disse que eu sou o cara", gabou-se Lula no inverossímil comício para a platéia de sindicalistas em que Dilma Rousseff rebaixou o exílio a ato de covardia e o presidente da República anunciou que se afastaria por algumas horas do palanque para ensinar um gringo inexperiente a lidar com o Irã. Decolou tão invocado quanto naquele dia em que ordenou a George Bush que proibisse a crise econômica de cruzar o Atlântico.

Viajou tão grávido de autoconfiança quanto na excursão que lhe permitiu resolver a crise do Oriente Médio. Pousou em Washington pronto para ministrar à turma presente ao debate da questão nuclear outro curso intensivo de diplomacia moderna. E avisou que queria uma conversa na Casa Branca sem hora para terminar. Depois de muita insistência, conseguiu 15 minutos, divididos com o companheiro Recep Erdogan, primeiro-ministro da Turquia.

Teve de conformar-se com sete minutos e meio. Como não fala sequer boa tarde em inglês, os intérpretes engoliram metade do diálogo.
Como Obama ocupou dois minutos da conversa com Lula, o mais falante dos presidentes precisou comprimir em um minuto e 45 segundos a discurseira em favor dos trapaceiros atômicos do Irã.

"Obama não vê nenhum problema em que se tente uma solução negociada", disse o óbvio, à saída da curtíssima reunião, o chanceler Celso Amorim. O ministro que chama Lula de "Nosso Guia" nem terminara a frase quando o presidente americano informou que as sanções aplicadas ao regime dos aiatolás serão ainda mais severas do que se previa.

Lula viajou para os EUA como candidato ao cargo de secretário geral da ONU. Configurado o isolamento internacional, voltou como candidato a ex-presidente do Brasil.
Ainda vai descobrir que foi o tradutor, e não Obama, quem disse que ele era o cara. Ao inquilino da Casa Branca, um minuto de falatório bastou para penitenciar-se, de novo, por ter sido gentil com o cara errado.

Pena que Obama não tenha visto a foto do ministro Miguel Jorge entregando a camisa da Seleção Brasileira ao companheiro Ahmadinejad. O País do Futebol lhe pareceria mais lógico se acreditasse que, em troca do endosso à aventura nuclear, o Itamaraty conseguiu o apoio da torcida iraniana à ofensiva dos guerreiros do Dunga nos campos da África do Sul.

E pena que a conversa tenha sido tão breve. Se durasse meia hora, tanto Obama quanto Erdogan descobririam que, para Lula, todos os árabes são turcos e pacifistas. Inclusive os persas atômicos do Irã.

10.4.10

Lula Não Aceita Ordens

'O exemplo vem de cima', diz ministro sobre Lula

Por Mirella D'Elia

A magistratura reagiu com indignação, nesta sexta-feira, às declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em tom de desafio à Justiça Eleitoral, ele declarou, na quinta, que ninguém pode ficar "subordinado" a juízes em ano de eleições. "Não podemos ficar subordinados, a cada eleição, ao juiz que diz o que a gente pode ou não fazer", disse Lula, em discurso na abertura do encontro do PC do B, em Brasília.

O presidente participava pela primeira vez de um ato político de apoio à candidatura de Dilma Rousseff desde que ela deixou a Casa Civil para entrar na corrida ao Palácio do Planalto.

Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), a mais alta corte de justiça do país, dirigentes de associações representativas da magistratura e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) não gostaram das palavras. Uma das reações mais fortes partiu do ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo.

"O exemplo vem de cima. Quando o dirigente maior do país praticamente conclama a desobediência civil, a coisa fica séria. Não é assim que se avança culturalmente. É lamentável",
repreendeu Marco Aurélio a VEJA.com. Para o magistrado, todos devem se submeter às instituições democráticas. "Os inconformados devem simplesmente atacar as decisões judiciais", alfinetou.

Lula foi multado duas vezes por propaganda eleitoral antecipada recentemente. "No estado de direito nós não temos soberanos. Todos estão submetidos à lei. Se há eventual equívoco numa decisão judicial dela se deve recorrer", declarou o comandante do STF, ministro Gilmar Mendes, em entrevista em Brasília.

Já o presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), Mozart Valadares, disse que o discurso de Lula foi um "equívoco": "Lamento profundamente que um presidente da República tenha dado uma declaração tão infeliz. Lula não está acima da lei por ser presidente".

Democracia - A Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) divulgou nota lamentando as declarações. A entidade, que congrega 1,6 mil magistrados, lembrou que toda decisão judicial desagrada a uma das partes do processo. "Isso faz parte da democracia", cita o texto. "Tantas vezes, o então candidato e agora chefe do Poder Executivo recorreu e teve seus pedidos acolhidos pelo Poder Judiciário.  Os juízes não esperaram elogios por isso, porque estavam cumprindo seu papel", prossegue o texto.

O presidente da OAB, Ophir Cavalcante, qualificou de "assustadora e incompatível com a responsabilidade do cargo" a afirmação de Lula. E pregou o repúdio à postura. "A desobediência à justiça deve ser condenada porque a sociedade só é forte quando o Judiciário é forte. Devemos repudiar qualquer tipo de posicionamento que vise a amesquinhar o Judiciário e diminuir o seu alcance", disse.

O Que Deu Em Lula?

Noblat

O que deu em Sua Excelência, o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva?

Pirou?

Improvável.

Deixou-se empolgar pelo ambiente que lhe era amplamente favorável?

Pode ser - embora um líder experiente como ele não costume cometer erros típicos de um amador.

O que preocupa Sua Excelência a ponto de ele ter dito o que disse ontem à noite durante o evento promovido pelo PC do B para marcar sua adesão à candidatura de Dilma Rousseff a presidente?

Mais uma vez ele desafiou a Justiça depois de ter sido punido duas vezes por fazer propaganda antecipada da candidatura de Dilma.

Novamente pediu votos para Dilma. E com tal convicção e exagero que extrapolou. Disse a certa altura:

- Hoje não tem ninguém mais preparado do ponto de vista técnico para governar este país do que esta senhora Dilma Rousseff, futura presidenta deste país.

Foi além - e ao ir deixou de ser convincente. Passou a impressão de estar apelando:

- Vocês vão fazer campanha para uma mulher cuja história é motivo de orgulho. Se eu conhecesse ela (sic) antes de ser candidato, eu não seria (candidato), porque teria indicado ela (sic).

Quem é capaz de acreditar que Lula teria abdicado há oito anos da própria candidatura em favor da candidatura de Dilma se a conhecesse naquela época?

Desde 1989 quando foi candidato a presidente pela primeira vez, Lula jamais deu brecha para que prosperassem outras candidaturas dentro do PT

Foi assim até em 1998 quando ele sabia com bastante antecedência que a derrota era certa.

O trecho mais desparatado da fala presidencial foi aquele onde Lula afirmou, exaltado:

-
Quando eu estiver fora (do governo), vou ter força para evitar que se faça com a Dilma o que fizeram comigo em 2005 (aparentemente, ele falava da investigação do mensalão do PT). Vou gritar mais, vou ter mais liberdade. Não vou ser instituição. Vou arregaçar as mangas para fazer a reforma política, porque não podemos ficar subordinados ao que um juiz diz que podemos ou não fazer. Vou poder gritar mais, perturbar mais.

Como ex-presidente vai o quê?

Gritar mais? Perturbar mais?

Arregaçar as mangas para fazer a reforma política?

Não é comportamento que se espera de um ex-presidente - gritar, perturbar mais.

Teve oito anos para negociar com os partidos a reforma política - por que não o fez?

Outro dia, Lula admitiu que fora da presidência, e uma vez Dilma eleita, ele continuará influenciando as decisões do governo.

Sabujamente, outro dia Dilma também admitiu que caso se eleja consultará Lula sobre assuntos importantes.

Há líderes do PT aflitos com o fraco desempenho inicial de Dilma como candidata. Sem Lula ao seu lado, ela claudica, derrapa, diz bobagens.

De outra parte, a poderosa sombra de Lula poder levar o eleitor a concluir que Dilma não passa de uma marionete dele.

Para dizer o que tem dito, para proceder como tem procedido, Lula deve estar enxergando coisas que escapam aos mortais comuns.

Em Modo Extremo

J. R. GUZZO


"Lula não corrige nenhum dos erros que comete, pois acabou convencido de que não erra nunca; além disso, é estimulado o tempo todo a continuar errando"



O brasileiro comum, do tipo que não pode nomear parentes nem agregados para "cargos em comissão" no serviço público, raramente tem a oportunidade de ser bajulado. Em compensação, passa a vida pagando pelos estragos causados pela bajulação praticada em escala maciça, e todos os dias, nas esferas mais altas do governo – a começar pela esfera mais alta de todas. Não existe uma única alma, ali, capaz de admitir que possa haver algum erro, mesmo de pequeno porte, em qualquer coisa que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva diga, faça ou pense. O resultado é que Lula não corrige nenhum dos erros que comete, pois acabou convencido de que não erra nunca; além disso, é estimulado o tempo todo a continuar errando.
A conta, como de costume, é paga pelo público em geral. Como poderia ser diferente, quando as pessoas com quem Lula fala e convive diariamente estão dispostas a tudo para deixar claro, claríssimo, que ele tem sempre razão, seja lá no que for?

O presidente, por sua própria iniciativa, já se acha a obra mais bem-acabada que a história do Brasil conseguiu produzir até hoje. Fica ainda mais convencido disso, naturalmente, quando é chamado por seus ministros e principais mandarins de "Nosso Mestre", "Nosso Guia" ou "Nossa Luz", e passa o dia inteiro cercado de gente cuja grande preocupação na vida é dar um jeito de dizer só o que ele quer ouvir. Ou então não dizer, de jeito nenhum, o que ele não quer ouvir. Talvez ninguém tenha resumido melhor essa questão do que a ex-ministra Dilma Rousseff, pré-candidata oficial nas próximas eleições presidenciais. Questionada recentemente sobre o que achava da situação dos presos políticos em Cuba, que Lula havia acabado de comparar com "bandidos" de São Paulo, Dilma mostrou que só pensa naquilo – como concordar com o chefe. "Vocês não vão tirar de mim nenhuma crítica ao presidente Lula", respondeu aos jornalistas. "Nem que a vaca tussa." A candidata, em suma, não disse nada sobre a liberdade em Cuba. Ao mesmo tempo, disse tudo sobre o padrão de conduta hoje em vigor no governo.

Até algum tempo atrás, com seus índices de popularidade que não param de subir, Lula parecia satisfeito em ouvir de seus auxiliares, concordando 100% com eles, que é o maior presidente que o país jamais teve. Hoje já começa a dar a impressão de que está se sentindo grande demais para caber nas fronteiras do Brasil. "Eu gostaria que todos os governantes do mundo agissem como eu ajo", disse ele numa de suas recentes viagens ao exterior. Ultimamente deu para achar que o Brasil tem condições de resolver o problema do Oriente Médio, que está aí pelo menos desde 1948, ou de convencer os aiatolás do Irã a utilizar de maneira construtiva a bomba atômica que, segundo se suspeita, estão fabricando. Imagina que a melhor maneira de amansar ditadores é ficar amigo deles, e vive ouvindo de seus colaboradores que é um grande nome para chefiar as Nações Unidas depois que acabar seu mandato presidencial; aparentemente, até agora, vem achando muito natural essa possibilidade.

É óbvio que não se pode esperar nada muito diferente disso; a Presidência da República, aqui ou em qualquer lugar do mundo, é um ecossistema voltado para a sobrevivência dos mais aptos a bajular, obedecer e dissimular o que pensam. Tome-se, por exemplo, o caso da Casa Branca, onde a palavra "transparência" tem um valor quase religioso, pelo menos no discurso oficial da política americana. Ninguém que tenha um gabinete ali dentro sairia de casa de manhã, rumo ao trabalho, prometendo a si próprio: "Hoje eu vou dizer umas boas verdades a esse Obama". Se disser, serão as suas últimas palavras no emprego – o índice de mortalidade na carreira é altíssimo para pessoas que querem, ao mesmo tempo, servir a presidentes da República e manter intacta a sua sinceridade. Na verdade, a história se repete em qualquer lugar, público ou privado, onde alguém manda. O máximo que se consegue nesses ambientes, em matéria de crítica, são comentários do tipo: "O grande defeito do chefe é que ele trabalha demais". Ou é perfeccionista demais, sincero demais, confia demais nas pessoas, e por aí afora.

O problema, nos casos de bajulação em modo extremo como a que existe hoje em torno do Palácio do Planalto, é que o governo já começa a achar que a ausência de aplauso é uma anomalia; algo tão incompreensível que só pode ser má-fé. "Eu inaugurei 2000 casas e não vi uma nota no jornal", espantou-se o presidente tempos atrás. É nisso que veio dar essa história de "Nosso Mestre"...

1.4.10

A História Do Haiti É A História Do Racismo Na Civilização Ocidental

por Eduardo Galeano

A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou.
Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca idéia de querer um país menos injusto.

O voto e o veto

Para apagar as pegadas da participação estadunidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado.
Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha eleito nem sequer com um voto.

Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:
- Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores dão o exame por perdido.

O álibi demográfico

Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Porto Príncipe, qual é o problema:
- Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.

E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilômetro quadrado.

Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado... de artistas.

Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.

A tradição racista

Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar as dívidas do Citybank e abolir o artigo constitucional que proibia vender as plantations aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis pela invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a idéia sagaz: "Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".

O Haiti fora a pérola da coroa, a colônia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro".

Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino.
Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de
costumes dissolutos".
Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".

A humilhação imperdoável

Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca.
O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha meio milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.

A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate.
Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão.
Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia.

O delito da dignidade
 
Nem sequer Simón Bolívar, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar havia podido reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano havia-lhe entregue sete naves e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma idéia que não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo.
E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas convidou a Inglaterra.

Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pênis. Por essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indenização gigantesca, a modo de perdão por haver cometido o delito da dignidade.

A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.